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O castelo e os bárbaros

 

Por Luciano Pires

Nenhuma civilização jamais nasceu laica. Ao contrário, toda grande organização humana que se tenha firmado por longo período teve no esforço transcendente de uma imaginação religiosa primordial a origem de sua moralidade e seu ordenamento social. Foi por meio de ritos e em torno de locais sagrados que o homem sempre encontrou para a existência um sentido que, fechado em si mesmo, ele não pode encontrar. Nas palavras de Chesterton, escritor inglês:

A moralidade não começou quando um homem disse a outro: ‘Eu não te baterei, se tu não me bateres’; não há nenhum indício de que tal acordo tivesse sido feito. Há, porém, indícios de dois homens que disseram: ‘Não devemos brigar em lugar sagrado’. Eles atingiram sua moralidade guardando sua religião. Os homens não cultivaram a coragem; lutaram em defesa dos santuários e acabaram por verificar que tinham se tornado corajosos.
(“Ortodoxia”)

Ao tratar da biografia de Russell Kirk, pensador norte-americano, Alex Catharino nos diz que

a análise eliotiana [T. S. Eliot] ressalta ‘que nenhuma cultura surgiu ou se desenvolveu a não ser acompanhada por uma religião’. Nessa mesma linha de raciocínio, o pensamento historiográfico dawsoniano [Christopher Dawson] entende que ‘a religião é a grande força criativa da cultura’, ao acentuar que ‘quase toda cultura histórica foi inspirada e constituída por alguma grande religião’. Alicerçado nesses fundamentos, Kirk sustenta que ‘cultura procede de culto’, visto que este é ‘uma reunião para adoração — isto é, uma tentativa das pessoas de comungar com um poder transcendente’.
(“O peregrino na terra desolada”)

Portanto, a força de uma civilização se mede pela aproximação que ela mantém com sua matriz religiosa e imaginativa inaugural, ao passo que seu declínio e autodestruição se fazem tanto mais acelerados quanto mais se desenvolvam nela subculturas internas que se voltem contra sua fé fundante — a qual, ordenando a razão humana por um vetor específico, desdobra-se no tempo em virtudes, vida interior, ética pública, ordem jurídica e organização política.

Foi graças à fé cristã, preservada no seio da Igreja Católica pela Tradição, pela compilação e reunião das Sagradas Escrituras e pelo Magistério, que certa unidade subjacente ao termo “Europa” pôde formar-se e sobreviver a 1500 anos de agitação cultural e política. A queda do Império Romano do Ocidente sob as invasões bárbaras (séc. V) gerou a crise da qual nasceria a Europa, mas tal renascimento da cultura clássica — sob um único e amplo poder atemporal — foi viabilizado por uma religião que, massivamente regada pelo sangue de mártires durante três séculos e, assim, fortalecida na Fé infundida pelo próprio Verbo Encarnado, soube aliar razão e Revelação num amálgama intelectual robusto, obstinado e resiliente.

Paulatinamente, os heróis espirituais da Patrística iluminaram com o Evangelho os novos líderes bárbaros. São Bento de Núrsia, sob a justa alcunha de “Pai da Europa”, estabeleceria, já no séc. VI, o modelo de vida monástica que faria dos mosteiros católicos verdadeiras fortificações de vida espiritual, intelectual e de aprimoramento técnico para o trabalho (agricultura), de modo que mesmo o flagelo da longa ocupação muçulmana da Península Ibérica (séculos VIII a XV) não seria capaz de extinguir a ascendência católica unificadora sobre os Estados nacionais emergentes.

Assim, não foi senão pela capilarização da fé católica na vida pública e privada que o Ocidente prosperou, oferecendo ao homem o entendimento mais apurado de sua própria dignidade, de sua frágil condição no mundo (vícios x virtudes) e de seu justo lugar na ordem do ser. Mesmo a selvagem hipertrofia fragmentária das modernas filosofia, psicologia e ciências naturais — lamentável efeito do divórcio entre teologia e filosofia, fé e razão, que marcou o fim da Idade Média — só pôde desenvolver-se no conforto da interiorização inconsciente de recortes éticos de raiz cristã, proporcionados pela difusão ancestral da teologia católica na cultura ocidental.

Agora, como em outros momentos dramáticos da história, sob a hipnótica superfície das narrativas, das ideologias e da política, arde um confronto espiritual. Os indutores da avançada autofagia ocidental sempre souberam a quem deveriam destruir e, no séc. XX, aprimoraram sua estratégia. Perceberam que só pela cultura poderiam fazer ruir, desde dentro, a influência remanescente no homem contemporâneo da Igreja Católica, a “construtora da civilização ocidental” (segundo o célebre livro do historiador Thomas Woods Jr.), aquela a quem o Iluminismo do séc. XVIII, sob o transe racionalista e apelando a revisionismos, pretendeu usurpar a enunciação da verdadeira condição humana. Ironia das ironias, foi elevando o homem à altura divina que o Iluminismo viria a lançá-lo às mais obscuras profundezas; foi por subtrair-lhe a metafísica e a transcendência que um vácuo espiritual o precipitaria aos vertiginosos abismos da existência e da falta de sentido.

Uma vez mais a humanidade (ainda que não o perceba) depende da Cruz e da reta doutrina como espada e escudo. A Igreja é o castelo contra cujas muralhas novamente se bate o barbarismo (contemporâneo) e em cujo interior o corpo místico de Cristo preserva a mesma eterna semente, capaz de reflorestar desertos espirituais, fazendo novamente reviver o amor e a paz por reconhecimento e abertura à Graça divina.

Por que o latim é a língua oficial da Igreja?

 

Em 25 de março de 1961, L’Osservatore Romano publicava na primeira página um artigo, assinado com três estrelas, intitulado Latino, lingua della Chiesa, onde se defendia vigorosamente a necessidade que a Igreja tinha de uma língua “universal, imutável e não vulgar“. O artigo desenvolvia, em termos amplos e articulados, a afirmação de São Pio X, segundo a qual “a língua latina é considerada, por direito, a língua própria da Igreja“, e a passagem de Pio XI na Epístola Officiorum omnium, de 1º de agosto de 1922, segundo a qual a Igreja “exige, pela sua própria natureza, uma língua que seja universal, imutável e não vulgar“. Vale a pena recuperar as teses de fundo do referido artigo ao qual nunca foi dada uma resposta convincente:

“O primeiro requisito da língua da Igreja, ensina o Pontífice, é ser universal. Esta língua deve servir, na ordem da instituição eclesiástica, para colocar o centro da Igreja em contato rápido, seguro e igual, com todos os raios que se dirigem a este centro. Se, em discursos proferidos em ocasiões solenes perante este ou aquele povo, os Pontífices não hesitam em usar as respectivas línguas nacionais, já quando se devem dirigir à família católica universal, o uso desta ou daquela língua moderna, própria de uma comunidade singular, seria um favorecimento dessa mesma comunidade, em prejuízo das restantes. A Igreja, que, com palavras de São Paulo, proclama ‘ubi non est gentilis et iudaeus […] barbarus et Scyta, servus et liber‘ (Col 3, 11; Gal 3,28; Rom 10,12), não tirará nunca do prato da balança, com o objetivo de favorecer os interesses terrenos de um povo em detrimento de outros, o peso dos valores eternos da qual é a guardiã. Nem em caso algum forçará os povos com menor poder político ou cultural a inclinarem-se diante dos mais fortes, como os feixes no sonho profético de José (Gen 37, 6ss). Donde o uso do latim que não é uma língua própria de nenhum povo, nem favorece nem desfavorece parcialmente qualquer deles, cumprindo assim uma condição essencial que tem de ter, na ordem cristã, uma língua universal.

O uso do latim por parte da Igreja não tem apenas a função negativa de eliminar parcialidades e ressentimentos. A facilidade que ele proporciona aos sacerdotes de todo o mundo de compreenderem, prontamente e com precisão e uniformidade, os atos de magistério, de legislação, de exortação do Sumo Pontífice; a possibilidade de seguirem, nos Acta Apostolicae Sedis, as disposições dos dicastérios romanos; a possibilidade de acederem diretamente, durante o seu tempo de estudo, e depois, às obras dos Padres e dos grandes mestres; o uso de uma terminologia precisa, imutável, universal; a difusa capacidade que é o fundamento da ciência, de aceder às fontes originais; a rápida compreensão dos textos litúrgicos; e, finalmente, a comunhão numa supercultura que enriquece e não diminui as culturas nacionais; tudo isto constitui um feixe de ligações que contribui para ressaltar a unidade de todos os membros da Igreja, da ordem sacerdotal antes de mais, e, mediante ela, também a de todos os fiéis.

Pio XI (Epístola Officiorum omnium, de 1º de agosto de 1922): ‘É disposição providencial que o latim proporcione aos cristãos mais cultos de cada nação um poderoso vínculo de unidade, permitindo-lhes conhecer mais profundamente aquilo que se refere à Santa Madre Igreja e manter uma coesão mais íntima com o Chefe da família’. E Pio XII resumia e confirmava: ‘A liturgia latina é um vínculo precioso da Igreja Católica.

Além do requisito da aptidão para a universalidade étnica e geográfica, a língua da Igreja deve possuir, afirma o Sumo Pontífice, o atributo da imutabilidade: ‘A Igreja, que está destinada a durar até o fim dos séculos, exige pela sua natureza própria, uma língua que seja imutável.’ É um fato que as línguas vivas estão em permanente mutação; e, quanto mais os povos que as falam participam dos movimentos da história, tanto mais as suas línguas se alteram.

[…]

O terceiro requisito da língua da Igreja, prossegue o Sumo Pontífice, é que não seja vulgar. Não seria natural que a Igreja, a quem o Senhor pede que ‘olhe propícia para as tribulações da plebe, os perigos dos povos, os gemidos dos prisioneiros, a miséria dos órfãos, as privações dos desterrados, o abandono dos fracos, o desespero dos doentes, a decadência dos velhos, os anseios dos jovens, os votos das virgens, os lamentos das viúvas’ , e que aplica a esta humanidade sofredora as palavras do seu Divino Fundador: ‘Vós sois todos irmãos’, e o comentário de Paulo: ‘Em Cristo, não há judeus nem grego, nem escravo nem homem livre’, a ninguém ocorrerá pensar que a Igreja se deixe tomar por um horaciano desígnio em favor do ‘profanum vulgus‘. O vulgus são as massas imensas da vida cotidiana, com os seus interesses e as suas paixões. E a Igreja, se por um lado aprende e usa também o obscuro dialeto de uma pequena tribo do Congo ou da Amazônia, a fim de evangelizar estes filhos que Cristo lhe confiou, por outro lado sente a necessidade e o dever de confiar o sagrado depósito das suas verdades a uma língua que não se identifique com esta ou aquela de um povo singular, nem esteja genericamente ao nível de paixões e de interesses particulares. E também estes requisitos de elevação vai encontrá-los no latim, que, por isso, é ‘uma arca de incomparável excelência’ (Pio XII, discurso Magis quam) para as verdades eternas e imutáveis. Se o latim lhe não tivesse sido oferecido pela Provid~encia no começo da sua longa história, ela ter-se-ia visto forçada a procurar uma língua que possuísse os três resuiqitos que o Papa Pio XI especificou: ‘Dado que o latim realiza plenamente esta tríplice exigência’, conclui o Pontífice, ‘consideramos ter sido disposto pela Divina Providência que ele se tivesse admiravelmente colocado ao serviço da Igreja docente’

Trecho retirado do livro “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita” do Roberto De Mattei.

 

O homem que abriu mão do Prêmio Nobel para salvar vidas.

 

O Servo de Deus Jérôme Lejeune era o candidato favorito ao Prêmio Nobel de Medicina pela sua descoberta, aos 33 anos de idade (1959), da causa da Síndrome de Down, a trissomia 21. Com este achado, Jérôme passou a ser considerado um dos pais da Genética moderna.

Abaixo, segue trecho do livro “Poder Global e Religião Universal” do Mons. Sanahuja (pg. 266) retirado do livro do Cardeal Fiorenzo “A Figura Moral e Espiritual do Prof. Jérôme Lejeune”.

Em 1962 foi designado como perito em Genética Humana pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 1964 foi nomeado Diretor do Centro Nacional de Investigações Científicas da França. No mesmo ano é criada para ele, na Faculdade de Medicina da Sorbone, a primeira cadeira de Genética Fundamental.

Aplaudido e louvado pelos grandes do mundo, deixa de sê-lo quando em 1970 se opõe tenazmente ao projeto de lei de aborto eugenésico. Lejeune comabteu o malminorismo que infectou os católicos na França; estes supunham que, cedendo no aborto eugenésico, freariam as pretensões abortistas e evitariam uma legislação mais permissiva. Os argumentos de Lejeune foram muito claros: o aborto é sempre um assassinato; quem está doente nem por isso merece a morte; longe de frear males maiores, o aborto eugenésico abre as portas para a liberalização total desse crime. Sua postura lhe valeu uma real perseguição eclesial que se somou à perseguição civil, acentuada por sua defesa da criança não nascida no seio das Nações Unidas.

Em 1970, participou de uma reunião da OMS em que se tratava de justificar a legalização do aborto para evitar os abortos clandestinos. Foi neste momento que, referindo-se à Organização Mundial da Saúde, disse: “Eis uma instituição para a saúde que se transformou em uma instituição para a morte”. Nessa mesma tarde escreveu à sua mulher e à sua filha dizendo: “Hoje perdi meu Prêmio Nobel”. Em nenhum momento escutou os prudentes que o aconselhavam  a calar-se para chegar mais alto e assim pode influir mais.

João Paulo II, em carta ao Cardeal Jean-Marie Laustinger, então arcebispo de Paris, por ocasião da morte de Lejeune, dizia: “Em sua condição de cientista e biólogo, era um apaixonado pela vida. Chegou a ser o maior defensor da vida, especialmente da vida dos por nascer, tão ameaçada na sociedade contemporânea, de modo que se pode pensar que é uma ameaça programada. Lejeune assumiu plenamente a particular responsabilidade do cientista, disposto a ser sinal de contradição, sem se importar com as pressões da sociedade permissiva e com o ostracsmo que era vítima”.

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