“Quem cala, às vezes, re-sente”

Por Dom Justino de Almeida Bueno OSB*

Para a Igreja, a Fé deve ordenar toda a vida do homem e todas as suas atividades, também as que se referem à ordem política”. Por isso, em muitos momentos decisivos da nossa história, sempre tivemos corajosos homens de Igreja que, mesmo correndo o risco da incompreensão, não se furtaram do dever de apontar com “maior clareza as exigências que da ordem moral decorrem para a ordem política”, exortando o fiel leigo “a assumir sua função específica na construção da sociedade” (CNBB 1977), de acordo com os princípios e exigências da Doutrina da Igreja. Assim, desde Dom Vital, na ‘questão religiosa’ no Império, a Dom Eugênio Sales, na época dos Governos Militares, temos exemplos de intrépidos pastores que, conscientes das suas funções e sem exorbitá-las, com grande prudência pastoral, tiveram presente não só a imagem pública que um bispo (epíscopo-vigia) deve oferecer, sobretudo, nos meios de comunicação social, como, também, as expectativas que suscita com seus pronunciamentos e o exemplo que deve dar (cf. Apostolorum Successores, 41).

Nessa linha dos nossos grandes bispos, era esperada uma palavra mais incisiva (mais católica!) sobre o momento político que estamos vivendo, para iluminar com maior certeza a participação neste, dos fiéis, sem que os mesmos traiam as exigências da fé e da pertença à Igreja. Sim, seria muito oportuna uma palavra dos nossos pastores que iluminasse o fiel sobre sua participação ou não, por exemplo, nos sindicatos e na “greve geral” promovida por muitos deles (ou por um partido político?).

Uma breve olhadela no Compêndio de Doutrina social da Igreja, nos faz constatar os seguintes graves e oportunos ensinamentos (o negrito é nosso):

A greve legítima “deve ser sempre um método pacífico de reivindicação e de luta pelos próprios direitos”, tornando-se “moralmente inaceitável quando é acompanhada de violências ou ainda quando se lhe atribuem objetivos não diretamente ligados às condições de trabalho ou contrários ao bem comum” (nº304).

“As relações no interior do mundo do trabalho devem ser caracterizadas pela colaboração: o ódio e a luta para eliminar o outro constituem métodos de todo inaceitáveis, mesmo porque, em todo o sistema social, são indispensáveis para o processo de produção tanto o trabalho quanto o capital. À luz desta concepção, a doutrina social não pensa que os sindicatos sejam somente o reflexo de uma estrutura de classe da sociedade, como não pensa que eles sejam o expoente de uma luta de classe, que inevitavelmente governe a vida social”. Os sindicatos são propriamente os promotores da luta pela justiça social, pelos direitos dos homens do trabalho, nas suas especificas profissões: “Esta ‘luta’ deve ser compreendida como um empenhamento normal das pessoas ‘em prol’ do justo bem: […] não é uma luta ‘contra’ os outros”. O sindicato, sendo antes de tudo instrumento de solidariedade e de justiça, não pode abusar dos instrumentos de luta; em razão da sua vocação, deve vencer as tentações do corporativismo, saber auto-regular-se e avaliar as consequências das próprias opções em relação ao horizonte do bem comum” (nº 306).

Queremos que nossos pastores iluminem com essas palavras do Magistério da Igreja a mente e a vida dos sindicalistas que se dizem católicos, mas estão agindo contra o que a Igreja ensina, agindo contra nosso país, contra os seus próprios concidadãos. Pois “as organizações sindicais têm o dever de influenciar o poder político, de modo a sensibilizá-lo devidamente aos problemas do trabalho e a empenhá-lo a favorecer a realização dos direitos dos trabalhadores. Os sindicatos, todavia, não têm o caráter de ‘partidos políticos’ que lutam pelo poder, e nem devem tampouco ser submetidos às decisões dos partidos políticos ou haver com estes liames muito estreitos: em tal situação estes perdem facilmente o contato com aquilo que é sua função específica, que é aquela de assegurar os justos direitos dos homens do trabalho no quadro do bem comum de toda a sociedade, e transformam-se, ao invés, em um instrumento a serviço de outros objetivos” (nº 307).

E nós sabemos, muito bem, quais são esses “outros objetivos” que estão por trás das badernas que estão sendo organizadas pelo país, contra a maioria esmagadora da nossa população que deseja (e tem o direito de) trabalhar, que é honesta, que faz sacrifícios para sobreviver. Em São Paulo, a cena do engarrafamento gigantesco formado pelos que queriam ir para o trabalho, contrastava com as 20 ou 30 pessoas que as impediam com fogo e barricadas. Na estação das barcas, em Niterói, idem, milhares de passageiros impedidos de ir ao trabalho porque os ‘sindicalistas’ achavam que eles eram obrigados a concordar com a greve. Não falemos das depredações dos bens públicos, incêndios de ônibus, motoristas sendo ameaçados com armas por motoqueiros para voltar com os ônibus para a garagem etc. O povo aderiu a esses malfeitores? Claro que não. Se não tivesse havido essa orquestrada ação contra os verdadeiros trabalhadores, os que não rezam na cartilha dos políticos ladrões e corruptos, o que teria acontecido na sexta-feira?

Queremos que nossos pastores ensinem o que a Igreja ensina!

Sabemos que não lhes “compete agir diretamente sobre as estruturas”, mas uma palavra deles poderá iluminar e esclarecer a consciência de tantos que estão enganados por aqueles que saquearam nosso país e estão querendo, com a boa fé e ignorância de muitos, voltar a fazer o mesmo. Que nossos pastores cumpram o seu dever e prestem, como em outros tempos, um serviço ao nosso país, mostrando aos fiéis católicos e aos homens de boa vontade, as contradições entre as exigências morais da vida cristã e a realidade que estamos vivendo, alertando para os riscos, estimulando o que há de bom e positivo, encorajando os esforços de todos os que se empenham em não roubar o povo, não servir-se dos cargos públicos para enriquecer, escandalosamente, suas famílias e partidos.

Como dizia Affonso Romano de Sant’Anna, “mente quem fala que quem cala consente. Quem cala, às vezes, re-sente”. O silêncio de muitos dos nossos pastores e, talvez, o não saber como enfrentar o momento presente e a ideologia do politicamente correto, já não é uma consequência e, ao mesmo tempo, um reconhecimento tácito dos erros cometidos num passado recente? Um re-sentimento por ter dado apoio a tantos ‘movimentos sociais’ que traíram seus objetivos? A Igreja não está sendo vítima, hoje, das opções preferenciais de alguns dos seus líderes que apadrinharam, talvez de boa fé, políticos e partidos que se revelaram corruptos e corruptores?

O alerta de Fátima, em 1917, está mais que atual: os erros do comunismo continuam a alastrar-se pelo mundo. “Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça”.

_________________________

*Dom Justino é monge beneditino.

shadow-ornament

Deixe uma resposta

NOTÍCIAS RECENTES

COMENTÁRIOS RECENTES

    ENDEREÇO

    Praça Olavo Bilac, 28 - Sl.1817, Rio de Janeiro, RJ
    CEP: 20010-000
    Website: http://centrodombosco.org
    Email: contato@centrodombosco.org

    Login